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Nova mascote do Cruzeiro, Cabulosa reacende debate: como a misoginia opera no cotidiano

  • Geral
  • maio 28, 2026

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Como uma ação que pretende dar voz a mulheres, debater temas importantes e proporcionar representatividade é capaz de desencadear tanto preconceito? O Cruzeiro ‘deu vida’ à Cabulosa, nova mascote da equipe feminina, antes da goleada por 4 a 0 sobre o América. A personagem deixou o público que acompanha a modalidade em êxtase – e não deveria ser muito difícil entender a razão. Em contrapartida, incomodou aqueles frágeis demais para acompanhar o ritmo da sociedade.

O No Ataque republicou o material compartilhado pelo Cruzeiro sobre a Cabulosa. Na postagem, chuva de comentários machistas e homofóbicos. “Representou bem as Marias”, “Os outros eram masculinos?”, “Eles mesmos produzem as chacotas”, “Mas essa é a mascote do time masculino”, “Representou bem o Arroyo” e “Ela parece LGBT, nem peito tem” são algumas das falas separadas para esta reportagem.

Cabulosa, nova mascote do Cruzeiro (foto: Gustavo Martins/Cruzeiro)

Rafaela Souza, pesquisadora na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) com interesse em estudos sobre culturas torcedoras e futebol de mulheres, não tem dúvidas para explicar a reação: é dessa forma que a misoginia opera nas instâncias mais cotidianas.

‘Aval institucional’ à modalidade

Na avaliação de Rafaela, a criação da Cabulosa reflete o pensamento do Cruzeiro acerca da importância da modalidade, um ‘aval institucional’: “Colocar a mulher no centro de uma ação é uma forma de valorizar o futebol feminino. Poucos clubes fazem isso. O futebol é culturalmente e historicamente pensado para homem”.

No mundo ideal, o debate deveria ter sido levado justamente para esse lado. Entretanto, a estratégia para atrair torcida e levantar debates, incluindo o que os clubes também poderiam fazer para fomentar a modalidade, ficou de lado. Mais uma vez, é necessário batalhar pelo respeito.

Foco desviado

A lógica do preconceito é explicada pela pesquisadora. O futebol é um espaço cultural, social e historicamente pensado para homens e por homens. No momento em que o Cruzeiro coloca a figura da mulher no centro do esporte, “é como se existisse uma intrusa dentro dessa lógica, valorização para uma modalidade que não é legitimada” – o futebol feminino foi proibido no Brasil entre 1941 e 1979.

Diante desse contexto, a inferiorização é sempre a partir da figura feminina ou de aspectos ligados à feminilidade. Ou seja, se determinado torcedor quer ofender o rival, recorrerá a substantivos femininos.

“Sempre o feminino é algo inferior. É a lógica histórica do machismo de que as mulheres são inferiores e não podem adentrar esses espaços tidos como dos homens. É como a misoginia opera nas instâncias mais cotidianas. São esses comentários que a gente reproduz de ‘só pode ser Maria’, ‘só pode ser franga’. A misoginia sempre passa por coisas do cotidiano e que a gente reproduz o tempo todo”

Rafaela Souza, pesquisadora da UFMG

Quando a rivalidade se encontra

É nesse momento, inclusive, que a rivalidade se encontra. Os apelidos ‘Maria’ e ‘franga’, utilizados por atleticanos e cruzeirenses, respectivamente, reproduzem a lógica condenada por Rafaela. Ao mesmo tempo em que as mulheres ganham espaço em locais antes não permitidos, os ataques aumentam.

“Criticar uma coisa comum, a presença de mulheres com aval institucional no futebol. Isso tem aumentado, mas a gente vê na mesma seara como os ataques estão ficando mais frequentes. É um espaço que está sendo ameaçado. E toda vez que esse espaço é ameaçado, os homens tentam a narrativa de ódio. O futebol é só mais um espaço em que isso é cultuado. A gente podia estar discutindo ‘olha só, o Cruzeiro tem uma mascote, está valorizando, fazendo um time competitivo’.”

Rafaela Souza, pesquisadora da UFMG

‘Parece LGBT, nem peito tem’

Os comentários preconceituosos abrem margem para a discussão da homofobia, que anda lado a lado com a misoginia. Como reforçado por Rafaela, “a inferioridade é sempre para o lado da mulher ou de pessoas LGBTQIA+. É sempre a partir da figura feminina ou de aspectos ligados à feminilidade”.

Por que a Cabulosa precisa ‘ter peito, senão é LGBT’? Por que o corpo é julgado? Trata-se da vigilância do papel e do corpo feminino, além da hipersexualização.

“O menor desvio ou expectativa não atendida dessa feminilidade significa que ela não é heterossexual e tem a suspeita da sexualidade, assim como você tem a suspeita da sexualidade das mulheres que praticam e gostam de futebol… Se não cumpre certos atributos, só pode ser LGBT. É um ótimo exemplo de como o machismo e a homofobia andam juntos no futebol. São as figuras incompatíveis com o que a gente construiu historicamente como o futebol. Porque é um esporte de combate, ligado a valores misóginos, pensando na virilidade, na força”.

Rafaela Souza, pesquisadora da UFMG

No entendimento dessas pessoas, “desviar-se da lógica heteronormativa faz do outro ser ‘anormal’. Ainda mais se ele pertence a um gênero e performa algo cultural e socialmente entendido como de outro”.

A vigilância sobre a mulher

Também se iniciou nas redes sociais a discussão de que a Cabulosa ‘nasceria’ como esposa do Raposão e mãe do Raposinho, os outros dois mascotes do Cruzeiro. Outra conclusão vazia que reforça o interesse em projetar o papel da mulher.

“Ela tem que ser a mãe, a esposa. Teve comentário sobre o corpo, a sobrancelha. Não se questiona se o Raposão e o Raposinho estão inclusive no aspecto de corpo atlético. Não tem uma vigilância em relação ao corpo deles. Mas ao corpo dela, assim que ela surgiu, criou-se essa expectativa: tem que ter maquiagem, peito. Dentro da lógica de que a mulher tem que ser ou performar”, continuou Rafaela.

No fim, os aspectos se conectam. A mulher em espaços tidos como masculinos incomoda, o que desencadeia reações de ódio. Na tentativa de inferiorizar o outro, são utilizados aspectos ligados à feminilidade e à sexualidade. Nas arquibancadas, portanto, os substantivos femininos ecoam.

“Foi se naturalizando a questão a partir de diferentes instâncias a tal ponto que a gente vê em falas muito comuns do cotidiano e que sempre refletem a lógica”

Rafaela Souza, pesquisadora da UFMG

https://noataque.com.br/futebol/brasileirao-feminino/time/cruzeiro/noticia/2026/05/16/cabulosa-reacende-debate-como-a-misoginia-opera-nas-instancias-cotidianas/

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