A Polícia Civil vai abrir inquérito para apurar crime de preconceito de raça e cor, previsto na Lei do Racismo, praticado anteontem (20) em Itatiba contra o assistente técnico Teddi Henrique de Andrade, de 38 anos, e o preparador físico José Reinaldo Macedo da Silva, de 54 anos, ambos da equipe Sub-20 do Guarani Futebol Clube. Eles foram ofendidos por um torcedor não identificado durante uma partida válida pela 68.ª edição dos Jogos Regionais, em que o time representava Campinas. O jogo foi interrompido pelo árbitro por duas horas e o time campineiro não retornou. Os integrantes da delegação foram para a Delegacia de Polícia para registrar um boletim de ocorrência. O autor das ofensas racistas e homofóbicas conseguiu fugir antes da chegada de Guardas Municipais e, até o final da tarde de ontem (21), não estava oficialmente identificado.

O delegado José Mário de Lara informou no boletim de ocorrência que o jogo aconteceu no estádio do Clube São João, no bairro Jardim América, onde Campinas enfrentava Itatiba, e que os dois integrantes da comissão técnica foram alvo “de comentários racistas e homofóbicos, vindos da torcida itatibense”. O delegado interpretou que o torcedor cometeu crime previsto na Lei 7.716/86 por “injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro, em razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional”. Ainda de acordo com o delegado, “o árbitro parou o jogo a fim de encontrar quem proferiu as citadas ofensas, porém o autor destas não foi localizado”.
Como esses crimes são processados por ação penal pública incondicionada, o delegado de polícia tem o dever de abrir o inquérito e dar início às investigações já a partir do registro do boletim de ocorrência, que, na prática, é o documento que dá conhecimento do fato. Portanto, a apuração da Polícia Judiciária será feita mesmo sem o pedido formal das pessoas ofendidas.
A Polícia tenta localizar imagens do autor que possam ter sido gravadas com celular por pessoas que estavam na arquibancada. O delegado que investiga o caso também espera que o responsável pelas ofensas seja delatado por intermédio do serviço Disque-Denúncia, que funciona pelo telefone 181. Câmeras de segurança de comércios e residências vizinhas ao estádio também podem ter gravado o momento em que o autor sai do local, e, por isso, as imagens estão sendo procuradas pelos investigadores.
O árbitro do jogo descreveu na súmula os detalhes dos acontecimentos. Os dois integrantes da comissão técnica, em entrevista a jornalistas, contaram que a pessoa que fez os atos estava encostada no alambrado, ao lado do banco de reservas do time campineiro. “Ele pronunciou várias vezes xingamentos e palavras em relação à cor da nossa pele e insinuações de conteúdo homofóbico”, contou o preparador físico.
Em nota, o Comitê Organizador dos 68º Jogos Regionais da 4ª Região Esportiva informou que repudia “qualquer tipo de manifestação violenta, ainda mais no ambiente esportivo, que preza pelo respeito e união entre cidades”. E informou que a Coordenação Técnica dos Jogos apresentou ao Comitê Dirigente estadual carta relatando o ocorrido. Já a Prefeitura de Itatiba repudiou as atitudes racistas e violentas porque “nada combinam com o espírito pacífico da cidade, que preza pelo bom acolhimento a seus visitantes”. É a sexta vez que a cidade é sede dos Jogos Regionais. Nessa edição são mais de cinco mil participantes de 46 cidades.
O Guarani Futebol Clube também divulgou nota em que manifestou repúdio “aos episódios de racismo e homofobia sofridos por integrantes da comissão técnica durante a disputa do 68º Jogos Regionais, competição Sub-20 realizada em Itatiba, na qual a equipe bugrina representava o município de Campinas”.
Segundo o clube, os fatos ocorreram depois de um dos jogadores ter sofrido uma falta violenta. Os integrantes da comissão técnica foram até o árbitro para reclamar do lance. Neste momento passaram a ser alvo das ofensas. Não havia Policiais no estádio. O Guarani informou que objetos foram arremessados contra jogadores e comissão técnica. O time somente conseguiu sair duas horas depois. O jogo foi encerrado.
“O Guarani considera inadmissível que profissionais que buscaram exercer seus direitos diante de possíveis crimes de racismo e homofobia sejam penalizados”, informa a nota.
O presidente do clube, Rômulo Amaro, acionou o Programa Antirracista Pela Cor do Esporte e o Ministério Público, por intermédio do Centro de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros.
Fonte: https://correio.rac.com.br/seguranca/torcedor-que-fez-ofensas-racistas-durante-partida-de-futebol-em-itatiba-e-procurado-pela-policia-1.1832093?amp=1








