Quando afirmamos que algo é “cultural” não é um salvo-conduto para o desrespeito. No entanto, é esse o argumento que por diversas vezes ressurge quando cânticos homofóbicos podem ser ouvidos nos estádios de futebol. Recentemente, vimos esse embate de visões no Big Brother, onde o participante Matheus tentou minimizar cânticos homofóbicos, justificando o preconceito como uma característica folclórica de uma região ou de um esporte.

A Cultura não é Estática
O erro de Matheus, e de tantos outros, é confundir identidade cultural com estagnação moral. A cultura de uma torcida é um organismo vivo, que tem a obrigação moral de evoluir quanto sociedade e compreender o impacto de suas palavras. Chamar um cântico homofóbico de “algo cultural” é, na verdade, uma tentativa de naturalizar a violência, transformando o ódio em entretenimento sob o pretexto do “futebol raiz”.
No futebol, a homofobia foi ensinada como ferramenta de provocação. Ao ser chamada de “cultura”, ela deixa de ser vista como um crime e passa a ser tratada como um costume. Quem justifica diz que “não é por mal”. Mas o impacto da homofobia não depende da intenção de quem canta, e sim da exclusão de quem ouve.

Babu: A Coragem de Romper o Pacto
Nesse cenário, figuras importantes como Babu assumem um papel fundamental no combate a esse comportamento. Ao confrontar Matheus de forma direta, Babu faz o que muitos evitam: ele quebra o pacto de silêncio da masculinidade tóxica no esporte.
Enquanto um lado busca justificativa em argumentos que já tiveram sua data de validade vencida, o outro encara a realidade de frente. Ter a coragem de dizer “isso é errado”, mesmo quando o interlocutor se recusa a ouvir, é o primeiro passo para desconstruir essa falsa herança de “futebol raiz”.
“A tradição que fere o outro não merece ser preservada; ela merece ser superada.”
O esporte é um espaço de união, e usar a cultura como escudo para o preconceito é, no fundo, uma confissão de que ainda temos medo de evoluir. O erro apontado por Babu é o espelho que Matheus, e boa parte das arquibancadas pelo mundo, ainda não tem coragem de olhar.
O Futebol Precisa Evoluir
A homofobia “cultural” é o último refúgio de quem não consegue aceitar que precisa conviver com a diversidade. Hoje, o estádio ainda continua sendo um lugar hostil para boa parte da sociedade. O embate entre Babu e Matheus é o reflexo de uma sociedade que não aceita mais que o preconceito seja vendido como tradição.
As punições no futebol brasileiro têm se tornado cada vez mais severas, justamente para combater o argumento de que tais comportamentos são “apenas culturais”. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) e a CBF deixaram de ver a homofobia como uma “provocação aceitável” para tratá-la como uma infração grave.
1. Punições Financeiras e Administrativas
Os clubes são diretamente responsáveis pelo comportamento de suas torcidas. Recentemente, grandes clubes brasileiros foram multados em valores significativos por cânticos homofóbicos:
Multas Pesadas: O Regulamento Geral de Competições (RGC) da CBF prevê multas que podem chegar a R$ 500 mil, podendo dobrar em caso de reincidência.
Exemplo Real: Em novembro de 2025, o São Paulo firmou um acordo para pagar R$ 100 mil devido a cantos homofóbicos contra o Corinthians no Morumbis.
Medidas Educativas: Além do dinheiro, o STJD tem obrigado clubes a publicar mensagens de conscientização em suas redes sociais oficiais, fixadas por longos períodos.
2. Punições Esportivas (Perda de Pontos)
Esta é a punição que mais assusta os clubes e que desmente diretamente a ideia de que “não tem nada demais”.
Artigo 243-G do CBJD: O Código Brasileiro de Justiça Desportiva permite a perda de pontos se a infração for praticada por um número considerável de pessoas (o famoso coro da torcida).
Protocolo de Arbitragem: Atualmente, os árbitros têm autoridade para paralisar, suspender ou até encerrar a partida se os cânticos discriminatórios não cessarem após avisos no sistema de som do estádio.
3. A Nova Lei Geral do Esporte (2023)
A legislação brasileira evoluiu para equiparar a homofobia ao racismo em termos de rigor.
Multas Individuais: Torcedores identificados podem ser multados pessoalmente em valores que variam de R$ 500 a R$ 2 milhões.
Banimento: Torcedores ou organizadas que pratiquem atos discriminatórios podem ser proibidos de frequentar estádios por até cinco anos.
A “cultura” que Matheus usa como justificativa está sendo, por força de lei, expulsa do futebol para que o esporte sobreviva com dignidade e que a arquibancada seja um local de acolhimento e diversidade, não de exclusão e violência.
Texto: Tainá Sena/Canarinhos








