A primeira Copa do Mundo disputada por 48 seleções entrou para a história não apenas pela ampliação do torneio, mas também pelo aumento expressivo dos casos de racismo e discriminação registrados dentro e fora dos estádios. Relatórios da Federação Internacional de Futebol (Fifa) revelam que o Mundial de 2026 apresentou um crescimento sem precedentes de ataques racistas nas redes sociais, reacendendo o debate sobre a eficácia das medidas de combate à intolerância no esporte.A primeira Copa do Mundo disputada por 48 seleções entrou para a história não apenas pela ampliação do torneio, mas também pelo aumento expressivo dos casos de racismo e discriminação registrados dentro e fora dos estádios. Relatórios da Federação Internacional de Futebol (Fifa) revelam que o Mundial de 2026 apresentou um crescimento sem precedentes de ataques racistas nas redes sociais, reacendendo o debate sobre a eficácia das medidas de combate à intolerância no esporte.

Um dos episódios de maior repercussão envolveu o atacante francês Kylian Mbappé. Após a vitória da França sobre o Paraguai pelas oitavas de final, a senadora paraguaia Celeste Amarilla publicou comentários considerados racistas pelo jogador. As declarações provocaram forte reação internacional, motivaram investigação das autoridades francesas e geraram críticas de lideranças políticas no Paraguai.
Além das ofensas dirigidas a Mbappé, diversos episódios marcaram o torneio.
Jogadores da Holanda sofreram ataques racistas nas redes sociais após desperdiçarem cobranças de pênaltis diante do Marrocos. Um influenciador argentino foi alvo de insultos discriminatórios. Torcedores do Egito e de Cabo Verde denunciaram agressões praticadas por argentinos nas arquibancadas, enquanto um torcedor mexicano pediu desculpas após fazer gestos considerados racistas contra um sul-coreano.
Durante uma partida, o técnico da seleção egípcia, Hossam Hassan, chegou a utilizar o gesto oficial da Fifa para denunciar discriminação racial.
Embora distintos, os episódios reforçaram uma percepção comum entre especialistas: o racismo continua presente no futebol, apenas mudou de ambiente. Segundo levantamento divulgado pela própria Fifa, o Serviço de Proteção das Redes Sociais identificou mais de 89 mil publicações ofensivas somente durante a fase de grupos da Copa do Mundo. O número representa crescimento de aproximadamente treze vezes em comparação ao Mundial do Catar, realizado em 2022. Entre todas as mensagens ofensivas detectadas, cerca de 11% continham conteúdo de natureza racial. A entidade ressalta, entretanto, que parte desse aumento também decorre da ampliação da competição para 48 seleções e da utilização de ferramentas mais sofisticadas de inteligência artificial para identificar conteúdos abusivos publicados na internet.
Para pesquisadores que estudam discriminação no esporte, a internet passou a ser o principal ambiente de propagação do preconceito.
O professor Daniel Kilvington, da Universidade Leeds Beckett, afirma que o racismo nunca desapareceu, apenas adaptou sua forma de atuação. Segundo ele, enquanto manifestações explícitas diminuíram nos estádios ao longo das últimas décadas, as redes sociais proporcionaram anonimato, velocidade e alcance global para os ataques. Além disso, ferramentas de inteligência artificial e vídeos manipulados por tecnologia “deepfake” passaram a ser utilizados para disseminar discursos de ódio e desinformação envolvendo atletas e dirigentes. Especialistas também alertam que grupos extremistas aproveitam o ambiente digital para ampliar a circulação de conteúdos racistas e tentar recrutar novos simpatizantes.
O sindicato internacional dos jogadores, a Fifpro, afirma que os episódios registrados durante a Copa não representam casos isolados, mas um padrão crescente de violência direcionada aos atletas.
Além do impacto psicológico, as ofensas podem afetar o desempenho esportivo, a vida familiar e até a permanência de jogadores nas redes sociais. O ex-jogador inglês Troy Townsend, referência internacional no combate ao racismo no futebol, afirma que muitos atletas recebem diariamente mensagens contendo insultos raciais, ameaças de morte, montagens ofensivas e símbolos de grupos supremacistas.
Segundo ele, o problema deixou de ser exclusivamente esportivo e passou a refletir o ambiente de polarização existente na sociedade.
Para especialistas, campanhas educativas e manifestações públicas já não são suficientes para conter o avanço da discriminação.
Há quem defenda punições esportivas mais rigorosas, incluindo perda de mando de campo, eliminação de seleções de competições internacionais e responsabilização criminal de autores de ataques racistas.
Na avaliação dos pesquisadores, a Copa do Mundo funciona como um retrato ampliado da sociedade contemporânea.
Com bilhões de pessoas acompanhando o torneio e milhões de interações ocorrendo em tempo real nas plataformas digitais, o Mundial evidencia que o combate ao racismo exige ações coordenadas entre governos, entidades esportivas, empresas de tecnologia e sistemas de Justiça.
Enquanto a Fifa comemora recordes de audiência e participação na Copa de 2026, o crescimento dos casos de discriminação demonstra que um dos maiores desafios do futebol mundial continua sendo garantir que o espetáculo seja marcado pela diversidade dentro de campo — e pelo respeito fora dele.
Fonte: https://www.diariodecuiaba.com.br/esportes/copa-de-2026-expoe-avanco-do-racismo-no-futebol-e-acende-alerta-sobre-violencia-nas-redes-sociais/745872








