Sábado: 24/10/2026 Por: Tainá Sena/Canarinhos
O Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+ oficializou o lançamento da 5ª Edição do Anuário do Observatório da LGBTfobia no Futebol (com o levantamento completo dos dados referentes ao ano de 2025). O anúncio foi realizado no âmbito do Encontro Presencial da Rede Memória do Esporte, promovido pelo Museu do Futebol, na capital paulista. A partir de hoje, a versão digital completa do estudo está disponível gratuitamente para público, pesquisadores, imprensa e órgãos desportivos em formato PDF.

Desenvolvido de forma autônoma e sem suporte orçamentário ou institucional de entidades reguladoras como a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) nesta edição, o levantamento consolida seis anos ininterruptos de monitoramento (2020–2025). O relatório expõe os números da violência discriminatória nas arquibancadas, analisa o perfil das vítimas e monitora a eficácia das punições aplicadas pela Justiça Desportiva no Brasil.
Retração dos casos e mudança na dinâmica da violência em 2025
De acordo com o documento, em 2025 o Observatório catalogou 62 episódios de LGBTfobia no futebol brasileiro. O número reflete uma tendência de queda contínua pelo segundo ano consecutivo — após o pico de 78 registros em 2023 e a marca de 66 casos em 2024. No acumulado histórico do projeto (2020 a 2025), o Observatório já contabiliza 342 casos mapeados em todo o território nacional.
A publicação detalha com precisão a dinâmica geográfica e autoral dessas ocorrências:
- Palcos da Discriminação: Os estádios mantiveram a liderança isolada como o ambiente mais hostil, concentrando 72,58% das ocorrências (45 casos). Os meios de comunicação e transmissões virtuais responderam por 22,58% (14 episódios).
- Autoria: As torcidas organizadas e grupos de torcedores responderam por 80,65% das atitudes discriminatórias registradas em 2025 (50 episódios), seguidas por membros da direção e comissão técnica das equipes (9,68% / 6 casos).
- Alteração no Perfil das Vítimas: O relatório aponta uma virada relevante no perfil dos alvos: em 2025, os atletas profissionais e das categorias de base tornaram-se o grupo mais atingido, figurando em 43,55% dos casos (27 ocorrências). As torcidas, que historicamente lideravam como alvo principal, responderam por 35,48% (22 casos), enquanto a arbitragem representou 11,29% (7 casos).
No recorte histórico do sexênio 2020–2025, o anuário destaca os clubes com maior incidência acumulada de episódios discriminatórios citados em súmulas, denúncias ou mídias: Corinthians (21 casos), Flamengo (18), Palmeiras (16), Atlético-MG (15) e Ceará (14).
Desdobramentos na Justiça Desportiva e Atuação Legislativa
A nova edição em PDF documenta que a fiscalização realizada pelo Coletivo gerou desdobramentos concretos nos Tribunais de Justiça Desportiva (TJDs) regionais e no STJD. O relatório mapeou 22 procedimentos e denúncias com desfecho localizado ou julgado referente ao período.
Entre as sanções destacadas estão a aplicação de multas severas e perdas de pontos a clubes reincidentes, além de transações disciplinares que condicionaram o encerramento de processos à realização de campanhas educativas contra a LGBTfobia e ao letramento social de atletas e comissões técnicas.
Na esfera política, o anuário celebra os avanços da articulação promovida pelo Coletivo para a instituição do Dia de Combate à LGBTfobia no Futebol (fixado em 13 de novembro). A matéria já obteve aprovação na Comissão do Esporte da Câmara dos Deputados (PL 1.702/2025) e avança em câmaras e assembleias estaduais na Bahia, em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Estudos Especiais: O Tabu da Camisa 24 e a Retração dos Clubes
A versão completa em PDF traz dois capítulos analíticos dedicados às transformações culturais do futebol nacional:
- A Resistência à Camisa 24 na Copinha (2026): Em um levantamento com base em 255 súmulas e mais de 10 mil atletas inscritos na Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2026, constatou-se que apenas 34 dos 128 clubes participantes (26,6%) atribuíram o número 24 a algum atleta. Embora o índice represente uma tímida alta em relação aos 25,0% registrados em 2025, o estudo demonstra a persistência do estigma de gênero e sexualidade nas categorias de formação.
- Postura Institucional nas Datas Festivas: O anuário traz um alerta sobre o recuo das equipes em campanhas de conscientização. Durante o Dia Internacional Contra a Homofobia (17 de maio), apenas 25,8% dos clubes das quatro divisões nacionais publicaram posicionamentos oficiais. No Dia do Orgulho LGBTQ+ (28 de junho), a adesão foi de apenas 22,6%, com manifestações fortemente concentradas em equipes da Série A.
Um dos pontos de destaque no documento é que a produção desta quinta edição do Anuário foi realizada sem nenhum tipo de suporte financeiro, logístico ou institucional da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Mesmo sendo a principal entidade de gestão do futebol nacional, a CBF manteve-se alheia ao financiamento e à viabilização da pesquisa. Diante desse cenário de desamparo orçamentário, o Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+ reafirma a sua independência e resiliência histórica, garantindo a continuidade do Observatório como uma ferramenta autónoma, indispensável e imune a pressões políticas para a denúncia e combate à LGBTfobia nos estádios brasileiros.
Como baixar o relatório completo
O anuário foi concebido para atuar como fonte primária de pesquisa científica, subsidiar matérias jornalísticas e apoiar decisões administrativas de órgãos esportivos e de segurança pública.
Acesse e faça o download gratuito da 5ª Edição do Anuário (PDF):








